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terça-feira, 2 de agosto de 2011

O empatador ! (História do Xadrez - nº. 1)

Em conversa com o amigo Rewbênio, decidimos que seria interessante criar algumas seções permanentes no blog, alimentado-as periodicamente. Nesse experimento, algumas das nossas postagens estarão previamente relacionadas a um tema específico (história do xadrez, torneios, partidas memoráveis, etc), na expectativa de aperfeiçoar tanto o trabalho de postagem, como facilitar a leitura dos amigos internautas. Inaugurando a novidade, segue interessante passagem ocorrida com um dos mais memoráveis ícones do xadrez mundial: Emanuel Lasker.


Lasker, um dos jogadores que mais tempo manteve a coroa de campeão mundial, iniciou seu reinado em 1894 após derrotar Steinitz em Nova Iorque. Somente foi destronado em 1921, quando já passados 27 anos como detentor da honraria máxima do xadrez mundial, e por ninguém menos que Capablanca. Durante o período que permaneceu como expoente máximo do xadrez, defendeu seu título contra os mais perigosos e preparados oponentes. Entre seus contemporâneos destacam-se: Pillsbury, Marshall, Tarrash, Janovski, Maróczy, Rubinstein e o austríaco  Carl Schlechter.  Curiosamente, esse último, além do próprio Capablanca, foi um dos que mais representou perigo à hegemonia de Lasker. Explique-se: Em 1910 Lasker e Schlechter acertaram um match de 10 partidas pelo título mundial. Embora não fosse considerado o desafiante mais apropriado para enfrentar Lasker (pensava-se em Tarrash  e principalmente Rubinstein), especialmente por seu comportamento pouco combativo e afável em demasia, a verdade é que o austríaco era um osso duro de roer. Mantinha-se  sempre em bom nível nos torneios,  especialmente pelo fato de perder poucas partidas. Aliás, empatava a maioria delas. Se não vencia constantemente, também não perdia com habitualidade. Era um tablador inveterado. Por isso mesmo, poucos imaginavam que ele pudesse representar perigo ao campeão mundial. Ledo engano.

A primeira metade do match se deu em Viena, e como era esperado, Schlechter assegurou empates nas quatro primeiras partidas! Para apimentar, na quinta, quando Lasker finalmente parecia estar próximo de vencer a resistência do empatador, cometeu um deslize e perdeu a partida. Imaginem a situação vivida por Lasker ao final da primeira metade do match: o desafiante, considerado pela crítica sabidamente inferior ao Campeão, não só não havia perdido como liderava a contagem por 3pts x 2pts, situação que, em tese, lhe permitiria empatar todas as partidas subsequentes e sagrar-se campeão.

Algum  tempo depois, a nervosa segunda metade do match teve início em Berlim. Embora Lasker se esforçasse ao máximo em dificultar o jogo para o desafiante, este último, de maneira impressionante, resolvia todos os problemas propostos com absoluta precisão. Lasker, nitidamente lutando pela vida, fez de tudo, mas não teve jeito, os empates prosseguiram até a nona partida, restando apenas uma para o encerramento do match! Na décima, a mais excitante de todas, visto que Lasker deveria vencer para manter a coroa (era o que se imaginava a princípio), a partida se complicou de tal forma para Lasker que muitos teorizavam que ele teria que usar toda a sua maestria para salvar-se com um empate. Magicamente, e como só no xadrez ocorre, Schlechter deixou de observar um recurso oculto de Lasker ao tentar uma combinação, resultando em um final perdedor, razão pela qual abandonou.

Por fim,  com muito suor, e tendo apenas empatado o match, Lasker conseguiu manter o seu título. Agora vem a parte mais curiosa, muitos dizem que Schlechter jamais perderia aquela última partida se não estivesse sendo forçado a jogar para ganhar!! Segundo alguns entendidos da época, Lasker teria imposto como condição prévia ao desafiante que este o vencesse por uma diferença de dois pontos, do contrário, o título continuaria nas mãos do então campeão.  E justamente esse detalhe teria salvado Lasker do austríaco, posto que ao desafiante não foi permitida a manutenção das suas características tablativas habituais. Coisas do xadrez. Para finalizar, segue a última e decisiva partida do match: 


segunda-feira, 18 de julho de 2011

A maestria no xadrez em meados do século XX

A maestria no xadrez, sem dúvida, é um grande atrativo para todos os seus praticantes. Seja pela vontade de um dia dominar os mais importantes elementos do jogo, seja pelo fascínio que os grandes mestres exercem sobre os jogadores menos fortes.

Antes de a FIDE criar os títulos oficiais de Mestre Internacional (MI) e Grande Mestre Internacional (GMI, ou só GM) em 1949, ou mesmo de Mestre FIDE (MF) em 1978, os jogadores tinham somente seus nomes, sua reputação, como mestres do jogo.

MI Edward Lasker (fonte: wikipedia)
O MI Edward Lasker (1885-1981) descreveu em seu livro The Adventures of Chess (1ª edição em 1949) as qualidades que os mestres de xadrez deveriam ter, com base em estudos feitos por psicólogos envolvendo mestres e amadores1:
  1. Elevado grau de inteligência, apesar de não necessariamente ter o mesmo grau de cultura. Um forte enxadrista pode ter muito pouca cultura. Pode até mesmo não saber ler ou escrever; mas jamais será um estúpido.
  2. A capacidade de pensar objetivamente. A presença de um oponente que entenda toda a lógica rigorosa das relações existentes no tabuleiro deixa pouco espaço para a arbitrariedade, para o julgamento subjetivo.
  3. A capacidade de pensamento abstrato. Fazer generalizações corretas, baseadas na experiência colhida em anos de prática, produzem o chamado "instinto posicional" de um mestre de xadrez que lhe permite inferir o melhor lance em situações nas quais o cálculo exato é impossível.
  4. A capacidade de distribuir a atenção sobre diferentes fatores, como os que estão sempre envolvidos em uma "combinação". Isto evita deixar de ver certos lances importantes, que é a maior fraqueza da maioria dos amadores.
  5. Uma vontade disciplinada capaz de forçar a velocidade e concentração do processo de pensamento, sempre que necessário, muito além de sua capacidade normal.
  6. Bons nervos e auto-controle. Um jogador que não pode disciplinar suas emoções ficará desmoralizado e jogará muito abaixo de sua força real. Um mestre de xadrez deve ser capaz de se manter sob controle quando nos apuros de tempo. Se cometer um erro que o faça perder uma partida ganha, ele deve assimilar calmamente a derrota e seguir adiante.
  7. Auto-confiança. Um mestre de xadrez deve ter confiança em seu julgamento posicional, já que a análise detalhada de todas as variantes raramente é possível.
Além desse 7 itens, ele ainda comenta ser necessário:
  1. Perfeição técnica. Isto exige uma grande quantidade de prática desde tenra idade. São necessários anos de estudo para assimilar o que os mestres de xadrez do passado descobriram, e para acompanhar a crescente massa de análise contemporânea de aberturas.
  2. Boa forma física é boa saúde. O estado de saúde de um mestre sempre afeta sua pontuação em um torneio. Ele deve ter disposição física para manter a cabeça limpa nas muitas horas de uma sessão de jogo (na época uma partida podia durar várias sessões de jogo de 4 a 5 horas cada).
  3. Enfrentar adversários de força superior. Deve-se praticar contra os jogadores mais fortes. Isto coloca em desvantagem lamentável jogadores que têm pouca ou nenhuma oportunidade de passar bastante tempo nas cidades em que os jogadores mais fortes se encontram (hoje em dia, com a internet, essa dificuldade é muito reduzida).

    1 Tradução livre e adaptada de trechos do Capítulo VI - Chess Mentality, da 2ª Edição do livro The Adventures of Chess, do MI Edward Lasker, pela Dover Publications, 1950.